Adriano Carôso

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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Introdução

XIII


Salvador, 29 de maio de 1969

Joca saiu no táxi com Carolina. Estava extremamente pensativo. Na verdade se decepcionara com Ducas pela traição a Hermínio. Se agia assim com um amigo de tantos anos que não precisava dele para nada, como seria com o próprio sacristão? Estaria só interessado em usar as pessoas? Os pensamentos se misturavam na sua cabeça. Um misto de raiva e decepção. Ou estaria ele ofendido por Hermínio de quem não conseguia esquecer? Não, isto não. Ele sempre fora um homem e não uma bicha apaixonada por um padre! Joca não conseguia se encontrar em seus pensamentos quando o taxista anunciou:
-Chegamos senhor, não vai descer?
Pagou a corrida e olhou para a casa que estava a sua frente. Como alguém podia ter tanto dinheiro e morar num lugar daqueles enquanto outros passavam fome e miséria? É, definitivamente Deus não é justo.
Tocou a sirene e em dois minutos um funcionário da residência veio atendê-lo.
-O que o Sr. deseja?
-Por favor, Dr. Mário Constantino. Ele está a minha espera. Meu nome é Antonio César.
-Acompanhe-me senhor. Ele o espera.
Entraram por um suntuoso jardim impecavelmente cuidado que encantou Joca. Ao fundo via-se a piscina em forma de um caroço de feijão. Ficava cada vez mais impressionado à medida que entrava na mansão. Ao chegar, Dr. Mário o esperava na sala de visitas.
-Prazer Sr. Antonio! Sou Mário Constantino.
-O prazer é todo meu senhor.
Durante as apresentações Mário observava a menina. Embora tivesse mentindo para a esposa, acabou por contar a verdade. Ela era linda. Conforme Dr. Miguel, seu colega, descrevera. Olhos azuis, pele clara e traços finos. Tinha realmente características de nobreza.
-Sr. Antonio. Vou chamar a minha esposa para ver a menina. Caso ela goste, ficaremos com a criança. Se tudo der certo, efetuarei o pagamento em particular no meu escritório ao lado. Não quero que ela presencie isto, entende?
-Claro doutor.
-Outra coisa. Para todos os efeitos eu vi a criança antes. Tive que contar esta mentirinha para convencer minha esposa. O senhor sabe né?
-Sem problemas Dr. Mário.
Mário tocou um sininho e segundos depois adentra a sala o indefectível Aurino. O mordomo que há anos trabalhava na família.
-Aurino. Peça a senhora Sandra que desça. Diga a ela que a menina está aqui.
Quando o mordomo avisou a Sandra, seu coração palpitou e mais parecia rasgar-lhe o peito e querer pular para fora. Não estava certa se era aquilo que realmente queria. Tinha medo, muito medo mesmo. Aquela criança lá embaixo não era sua. Como iria conviver com isto o resto dos seus dias? Seria melhor nem descer para vê-la. Mário não a perdoaria, seria para ele uma afronta. Deu a palavra ao colega que ela veria a criança. Não era justo que nem sequer descesse para olhar. Além do mais, bastava dar uma olhadinha e dizer que não gostou. Que não queria ficar com a menina. Estava decidida. Não iria criar uma desconhecida. Desceu sabendo exatamente o que iria falar.
Tudo mudou quando viu Carolina. Era uma princesa. Como sempre sonhara uma filha. Quando fitou a face da criança esta lhe deu um lindo sorriso. Uma lágrima rolou em seu rosto. Não teve como conter o choro.
Sandra tomou Carolina nos braços. Seus olhos brilhavam. Sentiu uma sensação de maternidade. Pareciam que as duas eram mãe e filha. Foi o que sentiu no momento. Sua mãe tinha razão. Iria criar a menina.
-Mário é linda! Você tinha mesmo razão.
-Ela é nossa filinha Sandra. Como iremos chamá-la meu amor?
-Perdão doutor pela intromissão. A mãe dela, antes de morrer, lhe deu um lindo nome. Carolina.
-É o nome da minha mãe! Exclamou Sandra. Carolina então. Vai se chamar Carolina. Minha Carol.
-Bem Sr. Antonio, vamos até meu escritório para acertarmos todos os detalhes.
Mário efetuou o pagamento a Joca. Foram cem mil dólares. Pagou em espécie e Joca contou nota por nota.
-Sr. Sou uma pessoa influente e não quero meu nome envolvido em escândalos. Por isso o Sr, vai esquecer de mim e de tudo que se passou aqui.
-Não se preocupe Dr. Mário. A discrição é fundamental. Nunca o vi na vida.
-É assim que se fala meu caro. Seja discreto e não irá se arrepender. O mesmo não posso falar caso faça alguma bobagem.
-Não tenha medo. Foi um prazer conhece-lo.
Joca estava satisfeito e orgulhoso de si próprio. Pela primeira vez esteve envolvido tão diretamente nos negócios de Ducas. Tinha consciência que se saíra muito bem. Nunca tinha estado com tanto dinheiro nas mãos. Agora podia entender o que Hermínio queria falar com “lhe pago muito mais”. Percebeu o quanto era pouco o que lhe cabia pelo tanto que se arriscava. E se fugisse com o dinheiro e fosse ao encontro de Hermínio? Mas tinha sua mulher e seus filhos. Não poderia abandoná-los. Não, não podia fazer isto. Naquele momento tomara uma decisão. Aceitaria a proposta de Hermínio.
Joca encontrou Ducas no hotel. Deu-lhe o dinheiro e contou-lhe como foi o encontro com Dr. Mário.
-Bom trabalho Joca. Você está a cada dia mais esperto.
-Obrigado padre, o Sr. é um homem muito bom.
- Que nada Joca, apenas sei reconhecer o trabalho e dedicação do amigo. Tome aqui meu filho. Cento e cinqüenta dólares para você. Hermínio pediu que lhe desse um pouco a mais.
-Obrigado padre.
-Não agradeça. Vamos fazer um brinde ao sucesso. Mas Joca, lembre-se sempre: Para Hermínio esta criança custou US$ 50.000,00. Este é um segredo nosso.
-Claro padre.
Joca se riu por dentro e pensou: -Segredo nosso? Sim, meu e de Hermínio.

Domingo, 7 de Junho de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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INTRODUÇÃO

XII

Salvador, 28 de Maio de 1969

Quando Hermínio deixou Joca no aeroporto Salgado Filho em Porto Alegre, este estava com uma cara inconfundível: a de quem vai viajar de avião pela primeira vez. Era para ele uma experiência fantástica. Sempre sonhara com isso. Preferia apenas que fosse numa outra circunstância. O padre cuidou do embarque de Joca e da menina. Não tiveram nenhum problema pela presença da criança. A certidão que Hermínio providenciara abriu as portas do vôo para a criança. Hermínio orientou o rapaz de como proceder durante a viagem.
-Bem Joca, espero que faça uma ótima viagem. Ducas vai te esperar no aeroporto de Salvador. Daí em diante é com ele. Ele pagará a você. Quando for pagar a minha parte pedirei que deixe um pouco contigo pela sua competência.
-Não precisa Hermínio. O que for a minha parte já me basta.
-Precisa sim. Não se desvalorize. Seu trabalho foi fundamental e de grande importância. Além do mais, nada paga os momentos maravilhosos que vivemos. Vá com Deus meu filho. Que ele te proteja sempre. Agora pense muito no que te propus. Pense nos seus filhos, na sua mulher, e como será bom tudo isso para nós. Deus te guie!
-Não sei Hermínio. Vejo muita confusão em torno disto. Acho que não vai dar certo.
-Vai sim. Vai com Deus. É a última chamada. Você não pode perder este avião. Daqui pra frente o funcionário da companhia aérea vai te guiar. Boa viagem.
-Obrigado padre. Fica com Deus você também.

Joca passou o vôo inteiro pensativo. Não pode sequer curtir a sua primeira viagem aérea tamanha era a confusão na sua mente. Em tão pouco tempo, muitas coisas aconteceram na sua vida que o deixaram atordoado. Bebeu muito durante a viagem e sentiu um forte enjôo. A comissária logo percebeu que Joca não estava passando bem.
-O Sr. está sentindo alguma coisa?
-Estou um pouco enjoado.
-Se der vá ao toillete que eu fico com a menina. Ou então use o saquinho.
-Joca levantou às pressas e conseguiu chegar ao sanitário a tempo. Vomitou tudo que comera e bebera naquele dia, mas saiu bastante aliviado. O vôo foi demorado. Quatro escalas se sucederam até a chegada em Salvador. Teve a sensação que se cansara mais do que na ida, mas achou maravilhoso sair de tão longe e chegar no mesmo dia.
Ducas se encontrava no Aeroporto Internacional Dois de Julho a espera do sacristão. Estava tranqüilo, pois a pouco havia mantido contato com Hermínio e tivera um relatório detalhado de toda ação. Ficara bastante satisfeito com o desempenho de Joca na missão. No início, ficou um pouco apreensivo pela inexperiência do rapaz. Ele próprio não poderia se expor tanto. Resolveu arriscar. Quando a chegada do vôo foi anunciada nos alto-falantes, correu para o mirante e aguardou ansioso. Quando Joca desceu da aeronave com a criança no colo, mandou-lhe um aceno com um sorriso que em poucas ocasiões era tão sincero.
-Joca meu amigo! Fez boa viagem com sua filhinha?
-Fiz padre. Um pouco cansativa, tive alguns enjôos, mas tudo bem.
-É natural da primeira vez meu filho. E a criança como está?
-Muito bem. Esta menina é um doce. Não estranha, quase não chora. Sabe padre, criei muito afeto por ela. Parece até que é minha filha mesmo.
-Ela é sua filha rapaz! Não estrague tudo depois de fazer tudo certo. Vamos, no carro a gente conversa.

Ducas foi até o estacionamento retirar o carro e foi pegar Joca na plataforma de desembarque. Ao entrar no veículo, a menina acordou e mostrou seus lindos olhos azuis para o sacerdote.
-Que bela menina Joca!
-Carolina padre. Foi a mãe quem deu o nome quando ela nasceu.
-Ela não tem nome Joca. Quem dará seu nome serão os verdadeiros pais daqui pra frente.
-Quando ela embarca para a Europa?
-Os planos mudaram meu filho. Esta menina deve ficar aqui mesmo. Será menos complicado e mais lucrativo. O mesmo preço com muito menos despesa.
-Como assim padre?
-Saberá de tudo em breve. Não se preocupe. Afinal, será você mesmo quem vai entregá-la. Falta acertar alguns detalhes. Até amanhã tudo se resolve, mas quero lhe pedir uma coisa. Não vamos comentar nada destas mudanças com Hermínio. Ele não precisa saber. Assim os lucros serão maiores pra gente. Para todos os efeitos a menina embarca para Itália amanhã cedo. Certo Joca?
-Claro padre. – Falou Joca tomado por um profundo sentimento de decepção.

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

A LÍNGUA DO "F"

O discurso etílico de mesa de bar às vezes produz algumas pérolas. Ontem de madrugada fui com uns amigos ao aeroporto esperar meu compadre Zé Filho que veio do Pará passar alguns dias na boa terra. De lá fomos a um barzinho tomar umas geladas e comer uma bela feijoada. Depois de muitas cervejas, meu amigo Goiabão já não conseguia pronunciar corretamente uma palavra sequer chapado que estava. Mas, na hora de contar este "causo" articulou tudo direitinho para delírio dos bêbados a sua volta que deram muitas risadas, incluindo este que vos fala. A autoria é desconhecida, mas vale o registro.

"Um sujeito entra no restaurante, senta e chama a garçonete pelo nome:
-Filomena faça favor!
-Pois não senhor o que deseja?
-Fineza fazer frango frito.
-Algum acompanhamento?
-Farofa e fritas.
-Quer algo para beber?
-Frisante.
Depois de comer, a solícita garçonete pergunta:
-Está satisfeito? Quer mais alguma coisa para comer?
-Filé e fígado.
-Para acompanhar?
-Feijão e farinha.
Quando acabou o segundo prato, Filomena perguntou ao senhor:
-Aceita alguma sobremesa:
-Frutas frescas.
Ela trouxe a fruta junto com um copo de água e um cafezinho. Ao tomar o café o senhor fez uma cara horrível.
-O que foi, não está bom o café?
-Frio e fraco.
-E como o senhor gosta?
-Forte e fervendo.
-Desculpe amigo, qual o seu nome?
-Francisco Fernandes Fontoura Figueira Filho.
-Qua a sua profissão?
-Fui ferreiro.
-E porque não é mais?
-Faltou ferro.
-E o que o senhor fazia?
-Faca, faquinha, facão, fechadura, ferrolho, ferro fundido, funil...
-E agora depois de aposentado como o senhor se sente?
-Feio, fodido e falido.
-Tudo bem seu Fernandes. Se o senhor falar mais seis palavras começadas com F não vai pagar a conta.
-Formidável! Ficando fiado fico freguês.
Ao falar isto, se levantou e saiu sem pagar a despesa. Filomena, percebendo o erro do moço gritou:
-Seu Fernandes, o Sr. disse apenas cinco palavras.
-Foda-se Filomena!"

Domingo, 31 de Maio de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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Introdução

XI

Salvador, 28 de maio de 1969

Os dias que se seguiram à consulta com Dr. Ciszem foram conturbados para Mário e Sandra. Ela desesperada e inconformada, ele exausto, com os nervos à flor da pele, cansado de tentar convence-la que adotar uma criança poderia resolver o problema conforme a orientação do próprio Ciszem. Resolveu pedir ajuda a sogra.
Foi uma decepção muito grande para Sandra que passara a vida inteira sonhando em ser mãe. Na verdade fora criada para isto, ser dona de casa, esposa e mãe. Mas Deus às vezes tem planos diferentes e contra isto não se pode lutar. Sua mãe, D. Carolina, a pedido de Mário, fora passar aqueles dias com ela em sua casa. Consolava Sandra como podia e conversava muito com ela.
-Sandra, acho que Mário tem razão. Não existe outra solução que não seja a adoção de uma criança.
-Mas mãe, um filho que não é nosso, que não sabemos de onde veio, quem são os seus pais, que sangue carrega nas veias. Isto não me parece algo para gente da nossa classe social. A maioria dessas crianças adotadas é de família miserável, às vezes até filhas de marginais. Que tipo de gente podemos botar em nossa casa?
-Filha, ninguém nasce ruim. O mundo e a criação é que se encarregam de formar o caráter de uma pessoa. Se você der amor a um filho adotivo como se fosse seu, educá-lo conforme seus valores, dar-lhe todo o seu amor, sua amizade, seu carinho, é isto que ele vai assimilar na vida. É de um boa índole então que ele vai se formar. E, além do mais, a criança nem precisa saber que não é filha legítima.
-A senhora acha mesmo isto mainha?
-Claro que sim. Veja a minha prima Analu, ela não é filha legítima de tia Olga. Embora saiba disto, é uma pessoa exemplar, uma excelente filha, uma mãe maravilhosa. Foi uma criança largada, sabe Deus por quem, na frente da casa de titia. Quando tia Olga a encontrou, ficou com ela pra criar e hoje são como mãe e filhas sem nenhuma diferença. Mas também foi criada com muito amor e com toda condição. Por que não pode ser assim com você querida?
-Ah mãe, não sei não. Tenho muito medo. Só de pensar que nunca vou poder ter o meu verdadeiro filho...
Neste momento Mário chega em casa todo feliz, cumprimenta a sogra e a esposa e fala:
-Tenho uma notícia maravilhosa para vocês!
-O que é amor? Fala logo.
-Calma Sandra. D. Carolina preciso da sua ajuda para convencer esta teimosa. Louca pra ser mãe e não quer adotar uma criança. Mas acho que ela pode mudar de idéia com o que tenho para contar.
-Fala Mário, estou ficando curiosa. Pára com esse suspense bem.
-Já ouviram falar de crianças brasileiras que são mandadas para a Europa?
-Esta ficando maluco meu genro? Está falando de contrabando de crianças?
-Calma minha sogra, não é nada disto. Falo justamente do contrário, de evitarmos que isto aconteça mais uma vez impunemente. Tem uma menina gaúcha, linda, olhos azuis, branquinha como algodão, linda mesmo, não tem sequer um mês de nascida. Pois esta menina está prestes a ser mandada para a Itália. Se Sandra quiser podemos evitar isto e ficar com ela.
-Você já viu a menina amor?
-Vi sim, fui lá hoje. É linda como uma rosa. – Mentiu Mário. – Tenho um colega que já defendeu umas causas para um dos intermediários do tráfico de crianças. Foi por intermédio dele que tomei conhecimento da menina. Ela pode ser nossa já, basta ligar para que eles mandem traze-la aqui. Depois, ninguém precisa ficar sabendo de nada. Não precisamos contar a ela que não é nossa filha. Temos pessoas de olhos claros na família. Tudo se encaixa perfeitamente. Sandra, só depende de você.
-Quanto vai pagar por ela Mário?
-Isto não vem ao caso. Nada que faça diferença.
-O que a senhora acha mainha?
-Por que não vai ver a menina?
-A gente podia ir ver ela meu amor?
-Não seria bom vocês irem lá. Podemos pedir que eles a mandem aqui. No máximo amanhã ou depois. Tenho certeza que vai adorá-la meu amor. Ela é uma princesa.
-Tudo bem, mande trazer a menina aqui então, mas não prometo nada.

Quando Luzia, empregada da casa desde os primeiros dias de casamento, hoje uma espécie de governanta do casal, vinha com a bandeja trazendo suco e biscoitos para Sandra e a mãe, não pode deixar de ouvir Mário chegar com a notícia. Ficou no corredor que dava acesso à sala íntima onde conversavam e ouviu tudo. Sentiu um arrepio na espinha e um pressentimento nada agradável.

Domingo, 24 de Maio de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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INTRODUÇÃO


X

Minuano, 27 de maio de 1969

Marcolino entrou no Bigodão com sorriso de orelha a orelha e ar de superior.
-Juca, passa a régua na minha conta. Quero pagar o que devo.
-O que aconteceu tchê! Tirou na loteria?
-Dívida é dívida, tem que ser paga guri. Bota logo uma branquinha para comemorar o pagamento Bigode.
-Onde arranjou dinheiro Marquinho? Andou fazendo alguma besteira?
-Marcolino filho da puta! Cadê Carolina seu bagual(1) duma figa? – Era Gerusa aos berros entrando desesperada no bar. – Foi assim que deixou de beber seu canalha? O que foi que você fez com a menina? Cadê minha Carol? – Ela não conseguia nem falar direito tamanho o desespero.
-Êpa! Sua Carol? Se enxerga mulher, sua filha se chama Salomé. Carolina é minha filha e não sua entendeu? Ela está bem, pode ficar tranqüila.
-Pelo amor de Deus Marquinho, onde está Carolina? O que você fez com ela?
-Eu dei para um grande amigo meu criar. Ele é rico, vai dar um futuro melhor pra menina. Escola, casa bonita, viagens, enfim, tudo que a gente não pode dar.
-Quem é esse amigo Marcolino? Nunca soube que tinhas amigo rico, tchê! De onde você conhece ele?
-Ele não é daqui não, é de Sergipe. Terra de gente boa, gente de bons sentimentos.
-O que não é o seu caso desgraçado. Filho da puta! Como pode existir um verme como você? Tu é um monstro! Não liga nem para quem ajudou a botar no mundo, não se importa com o destino da menina. Só pensa em você mesmo. Eu não estou engolindo esta história miserável!
-Claro que me importo com o destino de Carolina. Justamente por me importar que tomei esta atitude. Com o Antonio ela vai ter um futuro digno de uma rainha. Vai ter carinho, amor, educação e tudo que você mesmo diz que uma criança precisa. Será que você não entende Géu, é melhor para ela.
Gerusa olhava para Marcolino com olhos de serpente. A raiva lhe tomava por dentro e antes que fizesse uma bobagem saiu em prantos a correr desesperada pelas ruas sem saber o que fazer. Isto não ficaria assim. Ia por aquele verme na cadeia. Não podia fazer mais nada. Entregaria o mau caráter à polícia. Chegando ao posto policial, o delegado e o único guarda do município não se encontravam. O posto estava vazio. Resolveu esperar. Desde aquele dia, nunca mais dirigiu uma palavra a ele.

-Marcolino, esta estória está muito mal contada. – Era Juca que observara a discussão dos dois. – Você vendeu a menina para o sergipano de ontem né Marquinho?
-Relaxa Juca. Antonio é homem decente, rico. Logo se vê que é gente fina. Não pode ter filhos o coitado. Sua esposa sonha com isso. Eles vão dar um futuro melhor para a minha filinha.
-Para com isso Marquinho. Quando foi que te importaste com a menina? Além do mais sei que o sergipano te soltou uma nota preta. Onde tu arranjou dinheiro para pagar a conta?
-Eu não vendi a menina não Bigode. Ele só me deu uma gratificaçãozinha, entende? Nada de muito valor. Então estou aproveitando para honrar meu compromisso. Mas se não queres a grana não precisa que eu pague não é mesmo Juca?
-Não é isto que tô falando tchê. Sabes que não é. Já ouviu falar de contrabando de crianças amigo? Contrabandistas que roubam ou compram crianças no Brasil e mandam para o exterior? E se esse Antonio, se é que ele se chama assim, for um deles?
-Onde já se viu Juca! Um moço tão fino como aquele contrabandista? Tu ta é maluco que nem a desmiolada da Gerusa, isso sim.
-Quem vê cara não vê coração rapaz. Tu não sabe nada da vida mesmo tchê.
-Vamos largar de conversa fiada ô Bigode. Bota mais uma branquinha aí. Preciso de inspiração e abrir o apetite. Tenho que me alimentar bem. Mais tarde vou na Donana. Chegou uma chinoca(2) da fronteira que é uma beleza. Macanuda(3) a guria tchê, precisas ver. Deve ter uns quinze anos. Ta todo mundo querendo abater a guria.
-É já me disseram. Mas não to indo na Donana estes dias não. Da última vez deu o maior rolo com a patroa. Você sabe.
-Eu sou um homem viúvo, desimpedido. Só não comi a franga ontem porque ainda tava naqueles dia. Já botei preço e Donana garantiu que hoje guarda ela só pra mim. Vou dar um agradinho a mais pra velha.
-Quando foi que ser casado foi empecilho para você freqüentar Donana ou qualquer bordel da cidade Marquinho? Tu é muito cara de pau guri!
Marcolino passou o dia na boemia. Pagou bebida para os amigos, comeu tudo que podia, depois foi comemorar na Pensão da Donana. Foram exatamente oito dias de comemorações, orgias e farras, tempo suficiente até ele gastar o último centavo do dinheiro que recebeu por Carolina. Depois disso, caiu numa sarjeta de dar dó. Vivia feito mendigo pelas ruas implorando alguns trocados que invariavelmente gastava em cachaça. Comia com a caridade dos outros. Os que se diziam amigos desapareceram, mas o povo de Minuano tinha um bom coração e sempre davam a ele comida e agasalhos. Dormia pelas ruas e raramente tomava banho. O único amigo de farra que não o abandonou foi Juca. Nunca mais ele vendeu ou deu cachaça a Marcolino, mas sempre aparecia com um prato de comida ou cobertores e, era o único que sentava na calçada para conversar com ele. Marcolino passou dez anos perambulando pelas ruas da cidade nesta vida de pedinte. Ficou só pele e osso e quase morreu de cirrose até o dia que teve a visão que mudou a sua vida para sempre.


N.A. _____________________________________________________
1. Bagual: Equino selvagem, não domado.
2. Chinoca: Caboclinha, pessoa do sexo feminino de pouca idade que apresenta traços étnicos indígenas.
3. Macanudo: Bom, superior, belo, admirável, etc.

Domingo, 17 de Maio de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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INTRODUÇÃO


IX

Porto Alegre, 27 de maio de 1969

A viagem foi tranqüila. Carolina chorou só um pouco. Joca, com a experiência de seis filhos não teve dificuldades. Pegou a mamadeira que preparara na pensão, sob o desconfiado olhar de Donana, e acalmou a menina. Pe Hermínio já o esperava na rodoviária. Já tinha também providenciado um berço para o quarto com o hotel. Joca embarcava na manhã seguinte no primeiro vôo para Salvador.
-Não devemos sair mais hoje Joca, não é conveniente, pode chamar atenção. Desconfio que Gerusa, quando souber do ocorrido, irá procurar a polícia. Por falar nisso ela te viu?
-Não, em nenhum momento.
-Ótimo! Já providenciei que sirvam mingau quando ela estiver com fome. É só a gente pedir. Para todos os efeitos ela é sua filha. Entendeu?
-Olhe para esta menina padre. Quem vai acreditar que é minha filha?
-Não se preocupe. Ninguém precisa vê-la. Agasalhada do jeito que está quem verá a pele dela? Não me chame de padre, me chame apenas de Hermínio. Não está com fome?
-Para falar a verdade estou morrendo de fome.
-Vamos aproveitar enquanto ela dorme para comer. Vou pedir para mandarem algo bem gostoso para nós dois. Acariciou o rosto de Joca enquanto falava.
-Ela tem um nome o Sr. Sabia? Carolina.
-Sabia sim Joca. Mas isto não vem ao caso. Dentro de alguns dias esta menina vai embarcar para a Europa. Ducas já está fazendo os contatos e providenciando a documentação com nosso advogado em Salvador. Quando ela chegar lá, com certeza ganhará outro nome. Às vezes fico com remorsos, mas a verdade é que estamos ajudando e muito esta criança. Teria uma vida de privações aqui. Escola, alimentação, lazer? Que futuro teria essa menina aqui sendo criada por uma lavadeira? Ela vai ser adotada por um casal de condição. Vai ter uma vida melhor, viver num país melhor do que esta merda de Brasil. Por isso Deus não só nos perdoa como nos apóia.
-O Sr. acha mesmo padre?
-Hermínio, me chame de Hermínio meu garoto. Claro que sim Joca. Fique tranqüilo. – Alisou os cabelos encaracolados de Joca enquanto falava. – O que quer comer?
- O que escolher está bom pra mim.
-Então vou pedir um canelone de ricota.
-Cane o quê?!!!
-Canelone de ricota. É um prato italiano. A cozinha deste hotel é maravilhosa. Você vai gostar. Que tal um bom vinho para acompanhar?
-Pode ser.
Comeram no quarto mesmo. Carolina dormia tranqüila. Era uma criança serena, não estranhava ninguém e, justiça seja feita, estava sendo muito bem tratada pelos dois. Joca se deliciava com o canelone e com a segunda garrafa de vinho.
-Hermínio, isto aqui é gostoso mesmo. Vixe Maria! Não sei quando foi que comi algo assim. Acho que nunca. – Falou Joca mais solto sob o efeito do vinho.
-Você ainda vai comer muita coisa maravilhosa nesta vida Joca. Até melhor do que este canelone. Quando experimentar meu filé ao molho de madeira verá que além de bom padre sou um ótimo cozinheiro.
-Tomara que um dia eu possa provar.
-Só depende de você meu caro.
Durante o resto da tarde os dois ficaram com Carolina. Hermínio, sem que Joca notasse sua intenção, não deixava a menina dormir. Brincava com ela o tempo inteiro. Queria que ela sentisse muito sono à noite. Não poderia perder a última noite de Joca no sul. Só de pensar já estava excitado. Estava sentindo que o rapaz gostara do que aconteceu embora fugisse do assunto. Preferiu não pressionar. Esperou que a quarta garrafa de vinho fizesse o efeito desejado.
Joca contou com detalhes tudo que acontecera em Minuano. Como foi fácil convencer Marcolino Os dois riram. Sem nem mesmo entender, não teve coragem de contar ao padre que dormira com a moça na pensão de Donana. Às 10h mais ou menos, após uma última mamadeira, Carolina dormiu exausta. Hermínio serviu dois wiskhys 12 anos.
-Vamos fazer um brinde Joca. Tudo deu certo, temos que comemorar.
-Confesso que estou mais aliviado. Não pensei que fosse fácil assim. Ainda tenho um pouco de medo. A menina estava com uma amiga da mãe. Como o Sr. mesmo falou ela pode chamar a polícia e ainda tem a viagem de avião amanhã para Salvador. E se a polícia tiver avisada no aeroporto?
-Não se preocupe. Mesmo que Gerusa avise ao delegado, pois ela já deve estar louca uma hora dessas, eles não têm recursos para se prepararem em tão pouco tempo. Quando a polícia daqui souber, se souber, você já estará seguro em Salvador e a menina voando para a felicidade na Europa. Além do mais, pensam que é Sergipano. Depois de uns meses tudo vai ser esquecido. É sempre assim. Marcolino foi quem ganhou uma inimiga para o resto da vida, mas isso não é problema nosso.
Hermínio riu com o prazer da vitória. Pensava em quantos dólares valeria a criança. Já fazia tempo que não dava uma engordada destas na sua conta bancária. Ia tratar de abrir uma em Porto Alegre o mais rápido possível. Não poderia chamar atenção em Minuano com um depósito deste valor. Já cometera este erro antes. Agora que estava prestes a largar a batina e se beneficiar de tudo que juntou na vida para ter uma velhice feliz e tranqüila, não podia mais se expor.
-Hermínio, posso te fazer uma pergunta? – Falou Joca com a voz já embolada pelos efeitos do álcool.
-Claro Joca fale!
-Este negócio é muito arriscado não é?
-Não se preocupe. É seguro. Trabalhamos com muito cuidado. Quem poderia descobrir? Não dá nada pra gente não. Fique sossegado.
-Às vezes me dá medo. Não tenho nada Hermínio, nem como me defender caso algo aconteça.
-Não será preciso Joca, relaxe. – Falou enquanto alisava o rapaz e se aproximava mais.
-Tudo bem, confio em vocês. Mas tem outra coisa que quero falar. Não sei por onde começar.
-Pelo começo talvez. O que está te preocupando?
-É a respeito do que aconteceu ante-ontem. Não gostaria que ninguém soubesse. O Sr. me entende né?
-Claro que sim. Nem eu quero que ninguém saiba, muito menos Ducas. Ele não ia me perdoar. Mas quero que saiba que adorei. Você foi fantástico. Isto não é o fim do mundo acredite. – Enquanto falava Hermínio começou a alisar o pênis de Joca por sobre o calção que logo ficou duro. Este tremia de nervosismo e tesão. Não ia conseguir resistir. Amanhã ele iria embora e nunca mais isto aconteceria. Não tinha problema, só aquela vez. Como se adivinhasse os pensamentos de Joca, Hermínio tirou o pênis dele para fora e começou a fazer sexo oral no sacristão. Depois beijou-o na boca e foi correspondido. Mais uma vez fizeram amor ardentemente. Joca era demais, um homem como poucos, pensou o padre. Por isso sua esposa não largava do seu pé. Qualquer mulher, assim como ele, adoraria um homem daquele. Depois do sexo, deitaram juntinhos na cama de casal e Hermínio falou:
-Joca, se você quiser, posso dar-lhe uma vida bem melhor. Basta que venha morar comigo. Pode ser o sacristão da minha paróquia. Em breve pretendo largar a batina e podemos viver juntos num lugar tranqüilo, longe de tudo e de todos. Pode trazer sua família. Consigo uma casa para vocês, uma casa boa. Garanto a escola dos meninos. Te pago bem pelos seus serviços na paróquia. Aí poderemos fazer amor sempre sem que ninguém saiba. Claro que isto não pode ser agora. É preciso dar um tempo para as coisas esfriarem por lá. Você não deve ser reconhecido em Minuano.
-Hermínio você está louco! Pe. Ducas jamais iria me perdoar se eu o deixasse. Tenho uma dívida muito grande para com ele. É mais do que um pai para mim. E, além disto, jamais poderei voltar a Minuano.
-Deixe que eu cuido disso. Quanto a Ducas, tudo que fez na vida foi te explorar. Ficar com a fortuna enquanto só lhe dava migalhas. Você tem idéia de quanto ele lucra em cima do seu trabalho? Vá para a Bahia, pense no assunto. Temos muito tempo pela frente. Pense: é o futuro dos seus filhos que está em jogo. Você não quer dar uma vida melhor para eles? Pense, pense com muito carinho. Eu vou entrar em contato no tempo certo. Se precisar é só me ligar. Sabe como me achar. Agora vamos dormir um pouco, temos que sair cedo amanhã.

No berço ao lado, Carolina dormia tranqüila alheia a tudo, ignorando o destino que lhe esperava, por causa daqueles dois.

Domingo, 10 de Maio de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

Continuação. Para ler o capítulo anterior clique aqui.

INTRODUÇÃO


VIII

Minuano, 26 de maio de 1969

Marcolino, como nunca acontecia, acordou bem cedo, chamado por Joca. Só pensava no dinheiro que estava prestes a ganhar. Não o interessava o destino da filha. Sabia que Gerusa ia ter um treco, seria capaz de matar-lhe, mas isto depois ele resolvia. Não podia perder esta oportunidade. Eram sete e meia quando chegou à casa de Gerusa. Esta já tinha saído para o trabalho o que para ele era perfeito. Falou então com Salomé, filha de Gerusa que ficava com Carolina enquanto a mãe trabalhava.
-Seu Marquinho! Acordou bem cedo hoje, não foi?
-Vou procurar trabalho Salomé. Não dá mais para continuar nesta vida. Tenho uma filha e preciso ajudar na criação. Não posso continuar levando esta vida. Vou fazer Carolina sentir orgulho de mim. De início, logo deixei de beber.
-Que bom seu Marquinho. Minha mãe vai ficar muito contente.
-Cadê a Carolina, está dormindo?
-Está. Lá no quarto da mamãe. Dei uma mamadeira para ela agorinha mesmo.
-Posso vê-la?
-Claro. Vamos até lá.
Quando chegaram no quarto, Marcolino curvou-se junto ao berço e admirou a criança dormindo feito um anjo. Pela primeira vez percebeu o quanto a menina era bonita.
-Salomé, vai lá no tanque chamar sua mãe. Preciso conversar com ela.
-É pra já seu Marquinho. Olha a menina pra mim. – E saiu correndo ansiosa para contar à mãe como Marcolino havia mudado.
Quando Salomé saiu, Marcolino pegou Carolina no berço, pulou a janela do quarto e saiu em disparada para a pensão conforme havia combinado com Joca. Este já o esperava com tudo pronto. Desde fraldas até certidão de nascimento falsa para não haver problemas na viagem. Hermínio havia pensado em tudo.Estava preocupado e suando frio. Marcolino estava demorando, não podia perder o horário do ônibus. Será que alguma coisa dera errado? Pensou.Teve a preocupação de que Marcolino dormisse na pensão assim ele mesmo o acordara para não haver atraso. Andava de um lado para o outro olhando o relógio a cada segundo. Será que o rapaz chegaria a tempo?
Nem bem acabou de pensar Marcolino entrou no quarto com Carolina nos braços. Ela estava tranqüila, não chorava. Donana no entanto, muito estranhou Marcolino com a menina. Não acreditou quando ele disse que a tinha pego para dar uma voltinha e mostrar ao amigo. Joca pagou a conta e saiu com Marcolino para a rodoviária.
Chegaram em cima da hora, mas o ônibus ainda não havia saído. Antes de embarcar, pegou a menina no colo, pagou o combinado a Marcolino e se despediu.
-Você não vai se arrepender Marcolino. Sua filha vai ter uma vida de rainha.

De longe, Antonieta, prima distante de Gerusa, observava intrigada a conversa dos dois. Quem seria a criança que Marcolino estava entregando para aquele estranho? E o que tinha no envelope que recebeu? O que conversavam aqueles dois?

-Boa viagem, amigo. Vai com Deus!
O ônibus saiu enquanto Marcolino observava pensando; espero nunca mais vê-lo Antonio. Estava enganado.